Literatura Portuguesa I

Aula 02: Humanismo. A lírica humanista e o teatro vicentino

Fonte:

Não há exemplo mais completo da produção literária humanística do que a obra de Gil Vicente (1465-1536). Embora não se possa dizer que ele tenha sido o pioneiro do teatro lusitano, visto que desde o século XII já existiam formas teatrais (momos, arremedilhos e entremezes), não é exagerado dizer que ele foi o fundador do teatro português entendido como forma autônoma e vigorosa. Seus monólogos e autos resistem ao tempo, tanto pela qualidade poética da composição, como pelo panorama crítico da sociedade mercantilista. Vale lembrar a grande influência que recebeu Gil Vicente do teatro castelhano de Juan del Encina.

Gil Vicente iniciou sua carreira de artista palaciano em 1502, quando declamou seu Auto da visitação ou Monólogo do vaqueiro, que tem o Natal como tema, em homenagem a Dona Maria, rainha esposa de Dom Manuel, que dera à luz aquele que seria o futuro Dom João III.

Seu teatro engloba o auto, a farsa, a alegoria religiosa e as narrativas bíblicas. Como personagem, ele escolhe um tipo social, como o religioso, o marinheiro, o comerciante, ou um tipo alegórico, que representa uma virtude ou um defeito moral.

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Olhando de Perto

Suas mais importantes peças compõem:

- Trilogia das barcas: Auto da barca do inferno (1516)

- Auto da barca do purgatório (1518)

- Auto da barca da Glória (1519)

Dentre as farsas, merece citação a Farsa de Inês Pereira (1523).

trecho do Auto da barca do inferno:

ANJO

Que quereis?


FIDALGO

Que me digais,

pois parti tão sem aviso,

se a barca do Paraíso

é esta em que navegais.


ANJO

Esta é; que demandais?


FIDALGO

Que me leixeis embarcar.

Sou fidalgo de solar,

é bem que me recolhais.


ANJO

Não se embarca tirania

neste batel divinal.


FIDALGO

Não sei porque haveis por mal

que entre a minha senhoria...


ANJO

Pera vossa fantesia

mui estreita é esta barca.


FIDALGO

Pera senhor de tal marca

nom há aqui mais cortesia?

Venha a prancha e atavio!

Levai-me desta ribeira!


ANJO

Não vindes vós de maneira

pera entrar neste navio.

Essoutro vai mais vazio:

a cadeira entrará

e o rabo caberá

e todo vosso senhorio.

Ireis lá mais espaçoso,

vós e vossa senhoria,

cuidando na tirania

do pobre povo queixoso.

E porque, de generoso,

desprezastes os pequenos,

achar-vos-eis tanto menos

quanto mais fostes fumoso.


DIABO

À barca, à barca, senhores!

Oh! que maré tão de prata!

Um ventozinho que mata

e valentes remadores!


Diz, cantando:


Vós me veniredes a la mano,

a la mano me veniredes.


FIDALGO

Ao Inferno, todavia!

Inferno há i pera mi?

Oh triste! Enquanto vivi

não cuidei que o i havia:

Tive que era fantesia!

Folgava ser adorado,

confiei em meu estado

e não vi que me perdia.


Venha essa prancha!


Veremos esta barca de tristura.


DIABO

Embarque vossa doçura,

que cá nos entenderemos...

Tomarês um par de remos,

veremos como remais,

e, chegando ao nosso cais,

todos bem vos serviremos.



Nesse pequeno fragmento, em que se manteve a escrita da época, já se evidenciam características formais e conteudísticas renovadores. No plano formal, nota-se que Gil Vicente escrevia as vozes das personagens em versos heptassilábicos rimados. No plano do conteúdo, é inegável sua crítica moral de base religiosa, que inverte os valores mundanos: o fidalgo, recusado pelo anjo, acaba tendo de tomar a barca do inferno.

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Dica

A obra completa de Gil Vicente, em edição de 1562, está disponível no serviço da Biblioteca Nacional (Portugal), podendo ser acessada pela ligação:

Biblioteca Nacional de Portugal

Há um interessante comentário sobre o filme na link: Crítica do filme Auto da Compadecida.

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Atividade de Portfólio

No Auto da barca do inferno , Gil Vicente denuncia as mazelas da sociedade da época a partir de personagens tipos representantes das classes sociais. Após ler a peça, redija um comentário crítico no qual você deve esclarecer quais classes sociais são criticadas a partir de seus personagens, quais os pecados de cada um e como estes representam problemas da sociedade da época. (O texto deve ter, no mínimo 30 linhas).

Responsável: PROF.ª Ana Márcia

Universidade Federal do Ceará - Instituto UFC Virtual